domingo, 12 de agosto de 2007

Entrevista com a Sra. Maria Elisa Kanashiro, dia 22/06/07

Em 1937, nascia em Santos, Maria Elisa Kanashiro, terceira filha de quatro irmãos. Filha de mãe nissei e pai japonês; cresceu nos arredores da Vila Mathias, de onde guarda fortes recordações de sua infância e de sua mãe, que viúva muito cedo necessitou vender verduras pelo bairro. Atualmente Elisa preserva os costumes de sua família, tanto como esposa e quanto como mãe, sendo peça fundamental na preservação da tradição japonesa em sua casa.

*Ma: Marise Escobar (entrevistadora)
*E: Maria Elisa Kanashiro (entrevistada)


Ma: Seus pais são japoneses?
E: Só meu pai era japonês, minha mãe era nissei; ela nasceu em Itanhaém...ela só falava japonês porque meus avós eram japoneses.

Ma: Quando seu pai veio para o Brasil?
E: Meu pai veio no final da década de 20, ele era de Okinawa...aqui ele veio trabalhar como encerador de assoalho. Fazia esses serviços em casas...(sic)antigamente era tudo assim.

Ma: Que lembranças você tem de seus pais?
E: Do meu pai eu não me lembro...minha mãe dizia que eu era muito apegada (sic) com ele. Meu pai faleceu com 35 anos... eu só tinha 3 anos...minha mãe era do lar, quando meu pai faleceu deixou 3 filhos, sendo que ainda estava grávida...lembro de minha mãe vendendo verduras com tabuleiro na cabeça...nunca me esqueço(sic)...ela grávida...ela trabalhava com um tabuleiro...ela pegava as verduras no mercado municipal e saia com o tabuleiro na cabeça, depois com muito sacrifício comprou uma barraca na feira.

Minha mãe nunca mais casou...criou a gente. A gente só teve o curso primário(sic)...a gente não podia estudar muito.

Ma: Que influências da cultura japonesa você teve ao longo de sua vida?
E: Na religião, minha mãe preservou (sic) a religião de Okinawa. Minha mãe continuou a cultuar os antepassados...mas só o filho homem mais velho da família é que tem o dever de cultuar. Minha mãe continuou fazendo o culto...para passar para meu irmão(sic)...mas meu irmão tinha que ser, pois era o mais velho, mas ele não quis. Eu quando casei continuei a cultuar por causa do meu marido que é o mais velho.

Ma: Na cultura japonesa o filho mais velho tem o dever e responsabilidade de cuidar dos pais e do resto da família. Se o mais velho renegar, o seguinte pode assumir?
E: Não...só o mais velho, senão morre ali a tradição, porém no culto dos antepassados estou cuidando de cinco antepassados. Eu queria passar essa tradição para o meu filho mais velho...mas ele não quer mais continuar.

Ma: Como é esse culto?
E: Fazemos oferendas para as pessoas(antepassados)em seus aniversários de morte, de acordo com o que elas gostavam e nos dias um e quinze de todos os meses dá-se o café da manhã.

Ma: Você não aprendeu a língua?
E: Eu fui aprender o japonês, mas eu não quis continuar porque é muito difícil. Mas o meu irmão fala e minha sobrinha dá aula de japonês.

Ma: Que outros costumes você aprendeu?
E: Um pouco de uma dança com meu tio, isso quando criança...apanhei muito na mão com aquelas varas de bambu por não saber virar a mão nos ensaios de dança com o quimono, porque tinha uma maneira certa de movimentar as mãos.

Ma: Você aprendeu a culinária japonesa?
E: Minha mãe fazia mais arroz, feijão e verdura. Hoje eu misturo tudo, é mais fácil e rápido de se preparar e meu marido gosta. Meus filhos já preferem carne e batatas fritas, mas como eles estão no Japão, eu e meu marido não comemos frituras.

Ma: E sobre a sua família, seu casamento e seus filhos?
E: Eu casei com 26 anos. Aí meu sogro veio morar comigo, porque a família dele tinha cinco mulheres e meu marido é o mais velho. O casamento foi fora da tradição...casamos só no civil...tive quatro filhos, todos homens...perdi dois filhos, um com 24 anos e outro com 26 anos. O caçula morreu no Brasil, depois que veio do Japão. Hoje meus dois filhos moram no Japão e já tenho netos, mas não os conheço pessoalmente, só por fotos e pelo computador.

Ma: Quanto às festas tradicionais, quais você conhece?
E: A festa do casamento é uma das mais importantes, muitos convidados e muita fartura. Lembro quando menina da mesa de uma noiva que os enfeites era todos de origami e frutas, que representavam dois animais, a cegonha para trazer a fertilidade para o casal e a tartaruga trazendo a longevidade. A festa da primavera a gente sempre faz, aqui em Santos é em setembro... seu símbolo é a Sakura( flor da cerejeira). Tem também no dia primeiro de maio o Undo Kai...quando todo mundo se reúne para praticar alguma atividade física, várias gincanas...no ano novo fazemos uma reunião com toda a família pra romper o ano dentro de casa, para não trazer maldição. No dia primeiro de janeiro, a primeira visita tinha que ser de um homem(sic)... homem traz sorte para família...mulher não.

Ma: A sua família sempre morou em Santos?
E: Houve uma época que tivemos que fugir pra outra cidade, não lembro porque era muito pequena, mas meu marido conta... em 1940 até 42 muitos japoneses tiveram que sair. Meu marido teve que sair...foi pra Marília. Lembra das chácaras da ponta da praia? Foi nessa época. Tiveram que fugir de Santos para Marília porque senão seriam mortos. Estocaram comida por medo, mas nem puderam levar. Quando meu marido voltou vendia brinquedos de madeira na praia...fazia baldinhos de lata para as crianças brincarem na areia e também vendiam petecas.

Ma: Seus filhos brincaram com esses tipos de brinquedos?
E: Meus filhos só gostavam de autorama e vídeo game, brinquedos mais modernos né?

Entre memórias e saudades, assim é Dona Elisa, que insiste em sorrir sempre para a vida. Aprendemos com sua história, apesar de não ser japonesa de nascimento, ela mantém as tradições nipônicas, garantindo a união da família, mesmo que longe. Nas funções de mãe e mulher, ela é um exemplo de dedicação e doação para os que ama.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Entrevista com o Sr. Yassuo Kinjo, dia 24/05/07, em sua casa, em Santos

Em 1960, vindo da Ilha de Okinawa, o Sr. Yassuo Kinjo chega ao Brasil com a família. Foi fotógrafo de vários jornais, hoje aposentado. Em sua carreira recebeu inúmeros prêmios como profissional de destaque, entre eles como Melhor Fotógrafo da Baixada Santista dos anos de 1968/69.


Ma: O senhor saiu de lá com que idade?
Y: 17 anos.

Ma: Qual foi o navio que o senhor veio?
Y: navio holandês Tissadane.

Ma: Como era a vida no Japão na sua época?
Y: naquela época... ainda o Japão não tinha ser recuperado da 2 º Guerra Mundial. Ainda [sic] tava um pessoal saindo pra fora do país, para ver se conseguia vida melhor, né?

Ma: estavam incentivando o povo a sair?
Y: Esse era o normal, só que... o caso da minha família teve aquele problema do tufão...o famoso tufão da nossa ilha, naquele ano [sic]dos anos sessenta...grande tufão.

Ma: Quer dizer que, além do problema da guerra, teve o problema do tufão?
Y: Nossa casa, nossas casas vizinhas, umas cinco casas... tudo foi soterrado no deslizamento de terra. Nessa mesma vila, morreram dezessete pessoas inclusive... nós tivemos sorte e minha família se salvaram todos.

Ma: E esse tufão foi quando?
Y: 1960.

Ma: Nessa época seu irmão já tinha vindo?
Y: Já, meu irmão veio em 1958. Então parte de minha família veio por causa disso também... por causa de termos perdido tudo. Aí meu irmão ficou sabendo... nós mandamos cartas pra cá [sic] pro Brasil. Ele achou melhor chamar a família toda...porque lá perdemos tudo.
Y: Nessa época do tufão eu estava na capital.

Ma: Ah o senhor não estava lá?
Y: Estava estudando na capital, fazia Ciências Contábeis.

Ma: Em Tóquio?
Y: Não, não... nossa ilha é Okinawa. Capital de Okinawa se chama Naha. Nossa ilha é no extremo sul do Japão... nossa família é do norte da ilha e eu estudava no sul, uma viagem de mais ou menos três horas.

Ma: fale um pouco de sua família, quantos vieram pra cá?
Y: Nós somos cinco irmãos... o mais velho, o que veio pra cá, meu segundo irmão também já tinha se formado na parte de Arquitetura e [sic] tava começando a trabalhar e eu cursava o segundo ano de Ciências Contábeis e com tido esse motivo o meu irmão também chamou, eu tive que parar no meio do ano e vim pra cá trabalhar.O caçula que é meu irmão Paulo , que ainda estava no primário no sexto ano, e outro irmão que estava no oitavo ano...como eles eram[sic] mais crianças, chegando no Brasil, logo entraram na escola.

Ma: Vocês desembarcaram em Santos também?
Y: Chegava [sic] no porto de Santos e ia para o interior, cidade de Tupã.

Ma: E lá vocês foram direto para os cafezais?
Y: Sim, fazia dois anos que meu irmão estava lá.

Ma: Quer dizer que, para estudar vocês não tinham oportunidades aqui?
Y: Pra mim [sic] não... só meus irmãos mais novos estudavam.

Ma: o senhor quanto tempo lá em Tupã?
Y: Fiquei um ano só... como eu tinha estudado um pouco lá no Japão Ciências Contábeis, eu tinha uma noção de comércio e achava que ficar lá não ia dar em nada...meu irmão tudo bem, ele tinha feito Agricultura, estava no ramo...aí eu e meu outro irmão viemos para São Paulo tentar alguma coisa...aí consegui um emprego na Penha, num estabelecimento de fotos, um estúdio né? Aí eu comecei a trabalhar como fotógrafo aprendiz, então eu desci com parentes que me apresentaram outros fotógrafos em Santos, na “Foto Gonzaga”... trabalhei com eles uns cinco anos mais ou menos, quando abriu o Jornal Cidade de Santos...

Ma: O senhor foi trabalhar lá?
Y: Me chamaram, como eu era fotógrafo e trabalhava nesse ramo...fazia reportagens e tudo, fui trabalhar lá no jornal...até me mandaram para o Paraguai a serviço sem falar português.

Ma: Ah... era isso que eu queria saber, a dificuldade com a língua!
Y: Muita dificuldade no começo... também na alimentação. Esse trabalho me marcou muito, foi em 1968, houve um tornei no Paraguai e eu fui representando o jornal Cidade de Santos, o time do de Voleibol do Clube Internacional de Santos foi jogar lá... fui escolhido como jornalista fotógrafo...aí a Tribuna também mandou o José Herrera...nós dois fomos juntos, eu fotografava os jogos e com a ajuda de um fotógrafo de Assunção que me comprava os jornais, e eu recortava de noite todas as notícias e mandava tudo pelo avião.

Ma: O senhor tinha que se virar na marra?
Y: Na marra...!!!

Ma: O senhor trabalhou quantos anos como fotógrafo?
Y: 38 anos de profissão.

Ma: Então o senhor se aposentou?
Y: Sim... já.

Ma: Eu queria perguntar sobre a tradição, porque vocês têm uma cultura muito forte no Japão e o que o senhor pensa disso, da tradição japonesa? Vocês ainda mantêm essa tradição aqui no Brasil?
Y: No meu caso, por exemplo, estou afastado da família há muito tempo, nossa família ficou em São Paulo, freqüenta muito uma Associação de descendentes de Okinawa, eu como vim sozinho tentar a vida aqui em Santos, quase não tinha contato e só trabalhei muito como fotógrafo e não tinha tempo para outras coisas.

Ma: Mas aqui em Santos o senhor vai às festas e reuniões?
Y: Eu vou [sic] nas comemorações do Atlanta, onde freqüentam o pessoal da ilha e Okinawa.

Aqui em Santos o Sr. Yassuo desenvolveu seu olhar para captar imagens e por anos este foi seu ofício. Por vezes sem poder se comunicar verbalmente, conseguiu se expressar através da lente de uma câmera, fazendo dele uma figura perseverante respeitada e única em nossa cidade.