sexta-feira, 15 de junho de 2007

Entrevista com o Sr. Yassuo Kinjo, dia 24/05/07, em sua casa, em Santos

Em 1960, vindo da Ilha de Okinawa, o Sr. Yassuo Kinjo chega ao Brasil com a família. Foi fotógrafo de vários jornais, hoje aposentado. Em sua carreira recebeu inúmeros prêmios como profissional de destaque, entre eles como Melhor Fotógrafo da Baixada Santista dos anos de 1968/69.


Ma: O senhor saiu de lá com que idade?
Y: 17 anos.

Ma: Qual foi o navio que o senhor veio?
Y: navio holandês Tissadane.

Ma: Como era a vida no Japão na sua época?
Y: naquela época... ainda o Japão não tinha ser recuperado da 2 º Guerra Mundial. Ainda [sic] tava um pessoal saindo pra fora do país, para ver se conseguia vida melhor, né?

Ma: estavam incentivando o povo a sair?
Y: Esse era o normal, só que... o caso da minha família teve aquele problema do tufão...o famoso tufão da nossa ilha, naquele ano [sic]dos anos sessenta...grande tufão.

Ma: Quer dizer que, além do problema da guerra, teve o problema do tufão?
Y: Nossa casa, nossas casas vizinhas, umas cinco casas... tudo foi soterrado no deslizamento de terra. Nessa mesma vila, morreram dezessete pessoas inclusive... nós tivemos sorte e minha família se salvaram todos.

Ma: E esse tufão foi quando?
Y: 1960.

Ma: Nessa época seu irmão já tinha vindo?
Y: Já, meu irmão veio em 1958. Então parte de minha família veio por causa disso também... por causa de termos perdido tudo. Aí meu irmão ficou sabendo... nós mandamos cartas pra cá [sic] pro Brasil. Ele achou melhor chamar a família toda...porque lá perdemos tudo.
Y: Nessa época do tufão eu estava na capital.

Ma: Ah o senhor não estava lá?
Y: Estava estudando na capital, fazia Ciências Contábeis.

Ma: Em Tóquio?
Y: Não, não... nossa ilha é Okinawa. Capital de Okinawa se chama Naha. Nossa ilha é no extremo sul do Japão... nossa família é do norte da ilha e eu estudava no sul, uma viagem de mais ou menos três horas.

Ma: fale um pouco de sua família, quantos vieram pra cá?
Y: Nós somos cinco irmãos... o mais velho, o que veio pra cá, meu segundo irmão também já tinha se formado na parte de Arquitetura e [sic] tava começando a trabalhar e eu cursava o segundo ano de Ciências Contábeis e com tido esse motivo o meu irmão também chamou, eu tive que parar no meio do ano e vim pra cá trabalhar.O caçula que é meu irmão Paulo , que ainda estava no primário no sexto ano, e outro irmão que estava no oitavo ano...como eles eram[sic] mais crianças, chegando no Brasil, logo entraram na escola.

Ma: Vocês desembarcaram em Santos também?
Y: Chegava [sic] no porto de Santos e ia para o interior, cidade de Tupã.

Ma: E lá vocês foram direto para os cafezais?
Y: Sim, fazia dois anos que meu irmão estava lá.

Ma: Quer dizer que, para estudar vocês não tinham oportunidades aqui?
Y: Pra mim [sic] não... só meus irmãos mais novos estudavam.

Ma: o senhor quanto tempo lá em Tupã?
Y: Fiquei um ano só... como eu tinha estudado um pouco lá no Japão Ciências Contábeis, eu tinha uma noção de comércio e achava que ficar lá não ia dar em nada...meu irmão tudo bem, ele tinha feito Agricultura, estava no ramo...aí eu e meu outro irmão viemos para São Paulo tentar alguma coisa...aí consegui um emprego na Penha, num estabelecimento de fotos, um estúdio né? Aí eu comecei a trabalhar como fotógrafo aprendiz, então eu desci com parentes que me apresentaram outros fotógrafos em Santos, na “Foto Gonzaga”... trabalhei com eles uns cinco anos mais ou menos, quando abriu o Jornal Cidade de Santos...

Ma: O senhor foi trabalhar lá?
Y: Me chamaram, como eu era fotógrafo e trabalhava nesse ramo...fazia reportagens e tudo, fui trabalhar lá no jornal...até me mandaram para o Paraguai a serviço sem falar português.

Ma: Ah... era isso que eu queria saber, a dificuldade com a língua!
Y: Muita dificuldade no começo... também na alimentação. Esse trabalho me marcou muito, foi em 1968, houve um tornei no Paraguai e eu fui representando o jornal Cidade de Santos, o time do de Voleibol do Clube Internacional de Santos foi jogar lá... fui escolhido como jornalista fotógrafo...aí a Tribuna também mandou o José Herrera...nós dois fomos juntos, eu fotografava os jogos e com a ajuda de um fotógrafo de Assunção que me comprava os jornais, e eu recortava de noite todas as notícias e mandava tudo pelo avião.

Ma: O senhor tinha que se virar na marra?
Y: Na marra...!!!

Ma: O senhor trabalhou quantos anos como fotógrafo?
Y: 38 anos de profissão.

Ma: Então o senhor se aposentou?
Y: Sim... já.

Ma: Eu queria perguntar sobre a tradição, porque vocês têm uma cultura muito forte no Japão e o que o senhor pensa disso, da tradição japonesa? Vocês ainda mantêm essa tradição aqui no Brasil?
Y: No meu caso, por exemplo, estou afastado da família há muito tempo, nossa família ficou em São Paulo, freqüenta muito uma Associação de descendentes de Okinawa, eu como vim sozinho tentar a vida aqui em Santos, quase não tinha contato e só trabalhei muito como fotógrafo e não tinha tempo para outras coisas.

Ma: Mas aqui em Santos o senhor vai às festas e reuniões?
Y: Eu vou [sic] nas comemorações do Atlanta, onde freqüentam o pessoal da ilha e Okinawa.

Aqui em Santos o Sr. Yassuo desenvolveu seu olhar para captar imagens e por anos este foi seu ofício. Por vezes sem poder se comunicar verbalmente, conseguiu se expressar através da lente de uma câmera, fazendo dele uma figura perseverante respeitada e única em nossa cidade.

2 comentários:

Alice Mayumi Kinjo Okumura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alice Mayumi Kinjo Okumura disse...

Sou filha de Yasuo Kinjo. E com muito orgulho leio essa entrevista e divulgo a toda família e amigos. Para mim, ele é a maior referência de amor, trabalho, honestidade, educação e perseverânça.